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feliz natal
Misericordiae Vultus
juce

Evangelho do dia

I quaresma B

Evangelho - Mc 1,12-15
Naquele tempo:
12O Espírito levou Jesus para o deserto.
13E ele ficou no deserto durante quarenta dias,
e ali foi tentado por Satanás.
Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam.
14Depois que João Batista foi preso,
Jesus foi para a Galiléia,
pregando o Evangelho de Deus e dizendo:
15'O tempo já se completou
e o Reino de Deus está próximo.
Convertei-vos e crede no Evangelho!'
Palavra da Salvação.
 
 
Reflexão
 
Neste primeiro domingo de Quaresma, a “palavra-chave” não é o jejum, a esmola ou a oração: tudo isso não aparece nas leituras. A liturgia nos convida a fazer um percurso diferente. Na primeira leitura (Gn 9,8-15), tem uma palavra repetida por 5 vezes: aliança (v.9.11.12.13.15). “Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra [...]” (Gn 9,9-10). Toda criatura é destinatária de uma aliança; “destinatária” porque a iniciativa é de Deus: “... vou estabelecer minha aliança...”. Deus se compromete com as próprias criaturas: Ele as protegerá para sempre (v.12: “por todas as gerações futuras”). Deus é amor e o movimento natural do amor é sair de si mesmo para ir em direção do outro; Ele não consegue ficar longe das suas criaturas e lhes oferece uma aliança eterna de amor. Eis o fundamento para bem entender o tempo precioso da Quaresma: somos criaturas amadas e a aliança é a prova concreta do amor de Deus para conosco. Entre esta aliança com Noé (que simboliza a humanidade) e nós passaram milhares de anos e a segunda leitura nos conta o último ato da fidelidade de Deus á sua aliança: Jesus Cristo. “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo, pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus” (1Pd 3,18), porque “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A fidelidade de Deus não conhece limites e Ele fica fiel até as extremas consequências (“Aquele que nem mesmo o seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? -Rm 8,32-), porque o amor de Deus é mais forte do que a própria morte (“nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” -Rm 8,38-39-). Deus estabeleceu esta aliança também com você querido/a amigo/a, você também é protegido/a por Deus, por você também Jesus se entregou a morte porque para Deus nada é mais importante do que amar-te. A Quaresma, portanto, não é um tempo triste que deve ser vivido “fechando a cara” onde a única coisa permitida é um rigoroso jejum, mas é um dom que nos é concedido para (re)descobrir a beleza do amor de Deus. Os próximos 40 dias (até a Páscoa), são o momento para experimentar mais intimamente a aliança Deus-criatura e mais se abre o coração, mais se acende o “fogo” do amor de Deus em nós. Tudo isso é uma “revira-volta” porque o sentido da palavra “sacrifício” muda totalmente: não é algo que devo fazer porque chegou a Quaresma, mas é uma maneira para “desligar” o mundo e “ligar” o espírito. As palavras de Jesus no Evangelho (“O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho” –Mc 1,15-), não são o anúncio do fim do mundo, mas são figura da ternura de Deus que chega até nós para nos lembrar que Deus, com seu amor, já está aqui no meio de nós: Deus está esperando a sua resposta. O meu professor de teologia fundamental dizia: “Um encontro que decide a vida e você descobre que a sua vida é bem-sucedida se você responde”. Precisa porém “ficar espertos” porque no começo do Evangelho aparece “alguém” que não quer que a Quaresma se torne “o lugar” do encontro entre Deus e a criatura, mas que a criatura se separe do próprio Criador. Por isso poderá acontecer ao longo destes 40 dias de ser tentados através destes pensamentos: “Você viveu até hoje desse jeito, não precisa mudar; 40 dias é um período muito cumprido, não vale a pena começar”. As eventuais dificuldades não são nada se comparadas com a alegria do dia de Páscoa, porque quem se encontrou com o Ressuscitado não é mais o mesmo/a. Seria bom se ao longo desta primeira semana, pudéssemos ler pelo menos uma vez o salmo deste domingo, porque tenho a certeza que seria uma grande ajuda para abrir o coração e para entrar na maravilhosa atmosfera do tempo da Quaresma. Uma boa caminhada para todos...

VI ano B

Evangelho - Mc 1,40-45

Naquele tempo:
40Um leproso chegou perto de Jesus,
e de joelhos pediu:
'Se queres tens o poder de curar-me'.
41Jesus, cheio de compaixão,
estendeu a mão, tocou nele, e disse:
'Eu quero: fica curado!'
42No mesmo instante a lepra desapareceu
e ele ficou curado.
43Então Jesus o mandou logo embora,
44falando com firmeza:
'Não contes nada disso a ninguém!
Vai, mostra-te ao sacerdote
e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou,
como prova para eles!'
45Ele foi e começou a contar
e a divulgar muito o fato.
Por isso Jesus não podia mais
entrar publicamente numa cidade:
ficava fora, em lugares desertos.
E de toda parte vinham procurá-lo.
 
 
Reflexão
 
È surpreendente a insistência do evangelista em contar, neste primeiro capítulo, os milagres de cura de Jesus. Por quê? Mt 8,16-17 contem a resposta: “E, chegada à tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele com a sua palavra expulsou deles os espíritos, e curou todos os que estavam enfermos. Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças”. Deus através de Jesus mostra o seu verdadeiro rosto, ou seja, o rosto de um pai. Entre Deus e o homem existe um “abismo”: o homem é uma criatura, imperfeita, limitada e só com as próprias forças não conseguiria elevar-se até Deus. Então o próprio Deus baixou-se até o homem preenchendo esse “abismo”. S. Teresa de Lisieux nos explica isso: “Jesus sente prazer em mostrar-me o único caminho que leva para essa fornalha divina, e esse caminho é a entrega da criancinha que adormece sem receio no colo do pai... [...] quero encontrar o meio de ir para o Céu por uma via muito direta, muito curta, uma pequena via, totalmente nova. Estamos num século de invenções. Agora, não é mais preciso subir os degraus de uma escada, nas casas dos ricos, um elevador a substitui com vantagens. Eu também gostaria de encontrar um elevador para elevar-me até Jesus, pois sou pequena demais para subir a íngreme escada da perfeição. Vossos braços são o elevador que deve elevar-me até o Céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso permanecer pequena, que o venha a ser sempre mais” (História de uma alma, manuscrito B). Jesus nos mostrou que Deus não se esqueceu do homem, que a sua glória é o homem vivente (em todos os aspectos). Deus em Jesus morreu pregado na cruz para manter-se fiel ao homem apesar das conseqüências. Hoje estamos tão acostumados a ver um crucifixo, a ouvir que Jesus morreu na cruz que perdemos um pouco aquela capacidade de nos maravilhar pelo amor que está atrás disso. Neste domingo a liturgia nos apresenta um traço deste amor através da figura do leproso curado. O leproso devia andar “com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: «Impuro! Impuro!»” (Lv 13,45); era abandonado por todos e devia “morar fora do acampamento” (Lv 13,46): significava a perda completa da própria dignidade. Então porque Jesus não respeita essas normas, estende a sua mão, toca nele e o cura? As pessoas viam a aparência (uma pessoa doente), Jesus, “cheio de compaixão” (Mc 1,41), via o coração: toda pessoa humana, enquanto filho/a de Deus, tem uma dignidade imensa e nada e ninguém pode tirá-la, nem o mal da lepra. Esta foi a “revolução do amor” trazida por Jesus: Ele quebrou todas as barreiras, porque o importante é a lei do amor. S. Agostinho disse: “Ama e faz o que quiseres”. Estas palavras não são o “manifesto” da anarquia, porque quando se ama de verdade (e o verdadeiro amor sempre respeita o outro), uma nova luz se acende “transfigurando” a vida: o olhar de Jesus, cheio de compaixão, se torna o nosso olhar e se começa a colocar em prática as palavras de São Paulo na segunda leitura: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa fazei tudo para a glória de Deus”. S. Paula Elisabete viveu esta “transfiguração” quando abriu as portas do seu palácio para acolher os órfãos: ela não via crianças sujas com roupa rasgada, mas filhos/as que precisavam ser amados/as. Disse Gandhi: “Temos de nos tornar a mudança que queremos ver” e ainda “Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova”. Jesus a S. Faustina disse que “a humanidade não terá paz enquanto não se voltar com confiança à minha misericórdia” porque só um coração que experimentou o perdão e o amor pode amar e perdoar (Lc 7,47). Todos nós cristãos temos uma grande e linda missão: a missa não termina na igreja porque com a benção final começa uma “nova missa”. Jesus no fim da parábola do bom samaritano disse ao doutor da Lei: “Vai e faze da mesma maneira” (Lc 10,37). Jesus se fez tudo para todos e se comungando nós nos conformamos a Ele, significa que devemos agir como Ele agiu. Esse é o grande desafio do nosso tempo: amar sem reservas. Isto significa ser cristão, isto significa serem homens e mulheres de verdade.

V ano B

Evangelho - Mc 1,29-39


Naquele tempo:
29Jesus saiu da sinagoga
e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André.
30A sogra de Simão estava de cama, com febre,
e eles logo contaram a Jesus.
31E ele se aproximou, segurou sua mão
e ajudou-a a levantar-se.
Então, a febre desapareceu;
e ela começou a servi-los.
32É tarde, depois do pôr-do-sol,
levaram a Jesus todos os doentes
e os possuídos pelo demônio.
33A cidade inteira se reuniu em frente da casa.
34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças
e expulsou muitos demônios.
E não deixava que os demônios falassem,
pois sabiam quem ele era.
35De madrugada, quando ainda estava escuro,
Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto.
36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus.
37Quando o encontraram, disseram:
'Todos estão te procurando'.
38Jesus respondeu:
'Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza!
Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim'.
39E andava por toda a Galiléia,
pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
Palavra da Salvação.

Reflexão

A liturgia continua nos apresentando Jesus “em ação” curando os doentes e expulsando os demônios. Gostaria de começar comentando a primeira leitura do livro de Jó (7,1-4.6-7). Jó se “queixa” porque a vida é luta e sofrimento; quando uma pessoa fica doente o está atravessando um sofrimento só tem duas possibilidades: o desespero não encontrando significado nenhum naquela situação ou a esperança naquele Deus que pode salvar da morte (Hb 5,7b, veja também o salmo deste domingo: Deus “conforta os corações despedaçados, ele enfaixa suas feridas e as cura” –Sl 146,3-) e que permite de ver aquela situação sob uma nova “luz”. S. Faustina Kowalska escreveu: “O sofrimento é uma grande graça. Através do sofrimento a alma se torna semelhante ao Salvador; no sofrimento o amor se cristaliza: maior é o sofrimento, mais puro se torna o amor”. A oração e a fé levaram S. Faustina a ver no seu sofrimento (ela tinha a tuberculose), uma ocasião para penetrar os mistérios de Deus. Uma vez Jesus disse a S. Faustina: “Preciso do teu sofrimento para a salvação das almas”. É como se a cada pessoa que está sofrendo Jesus estivesse dizendo: “Com a minha cruz salvei o mundo, com a tua continuo salvando-o”. O sofrimento pode tornar-se a ocasião para participar da redenção dos homens, para fazer um caminho de libertação, para redimir-se dos próprios pecados. Neste domingo o Evangelho nos apresenta muitas pessoas que estão sofrendo (a sogra de Simão e todos os doentes da cidade), mas também algumas pessoas que estão “amarradas”. “Amarradas” por quem? Se Deus quer a nossa felicidade e nos ama, “alguém” quer a nossa ruína. Papa Francisco no Ângelus do domingo passado disse: “O diabo é o pai das divisões, é aquele que sempre separa, que sempre faz guerras, que faz tanto mal”. Hoje ninguém fala mais sobre ele, todo o mundo (até os próprios sacerdotes!) diz que não existe, que o inferno está vazio e se alguém tenta falar sobre ele, logo é chamado de louco e ingênuo. O diabo existe e a Sagrada Escritura continuamente nos dá testemunho disso (o Evangelho deste domingo é uma prova concreta). O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26a.27) e tudo aquilo que Deus criou “era muito bom” (Gn 1,31). O mal existe porque o homem ao invés de seguir a voz de Deus deixa-se “amarrar” pelo tentador, o “príncipe deste mundo” (assim é chamado no quarto Evangelho). Disse São João Paulo II: “Quem não acredita no diabo não acredita no Evangelho” e Paulo VI: “Através de alguma fissura, a fumaça de satanás entrou na Igreja”. Quando as pessoas não acreditam na sua existência, nem fazem nada para defender-se e o “mundo do ocultismo” que hoje está tão na moda com certeza não vem de Deus. A arma mais eficiente do diabo é insinuar a idéia que ele não existe para poder agir sem perturbações. Nossa Senhora na aparição do 25 de Janeiro a Medugorje disse: “Agora, como nunca antes, Satanás quer sufocar com o vento contagioso do ódio e da inquietação o homem e sua alma”. Não devemos nos assustar porque Jesus disse: “Ele (o diabo) não tem poder sobre mim” (Jo 14,30b) e se nós estamos com Jesus, ele nada pode fazer contra nós. São Paulo escreveu: “Vistam a armadura de Deus para poderem resistir ás manobras do diabo” (Ef 6,11). A armadura de Deus é a missa, a confissão, o terço, o jejum. Todo homem tem duas possibilidades: com Jesus ou com “o príncipe deste mundo” (Mt 12,30; 25,31-46). Escolhendo Jesus terminaremos a nossa vida como vencedores (Jo 16,33b) e as palavras de São Paulo (“Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé” -2Tm 4,7-) se tornarão as nossas quando receberemos “a coroa de glória que não murcha” (1Pd 5,4).  

III ano A

Evangelho - Mc 1,14-20
14Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' 16E, passando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. 17Jesus lhes disse: 'Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens'. 18E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus. 19Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; 20e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus. Palavra da Salvação.

 

Reflexão

No domingo passado a liturgia nos apresentou a vocação de dois discípulos de Jesus; neste domingo nos são apresentadas as vocações de Jonas (2ˆ leitura) e aquelas de outros quatro discípulos de Jesus (Evangelho). Porque no começo do ano litúrgico esta insistência sobre a “vocação”? Porque propor um trecho do Evangelho que começa com estas palavras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15)? Na verdade a liturgia não quer assustar ninguém, mas com palavras que podem parecer um pouco “fortes” está-nos anunciando: “Vou te dar uma notícia grandiosa! Jesus está chamando você! Ele deseja tornar-se seu companheiro de caminhada! Não se pode perder tempo porque Jesus é aquela oportunidade que o seu coração estava esperando!”. Para nos ajudar a liturgia nos conta alguns exemplos de pessoas que ouvindo esta “chamada” e respondendo, viram a vida deles “transformada”, “transfigurada”. Tudo isso no começo do ano porque antes se “planeja” o caminho e depois se começa a andar. A primeira leitura narra a história de Jonas: este livro é caracterizado pelo dinamismo “chamada-recusa-2ˆchamada-resposta afirmativa”. Quando Deus me chamou (pela primeira vez) eu também “fugi longe” como Jonas (Jn 1,3), agarrando-me ás minhas (falsas) seguranças (trabalho, balada, roupas de grife), achando que tudo isso era bastante para “ficar feliz”. Como Jonas eu também “dormia a sono solto” (Jn 1,5c), mas não conseguia esquecer-me daquela voz que como escreveu Santo Agostinho “rompeu a minha surdez”. Entre a primeira e a segunda chamada, Deus deixa o tempo para “raciocinar” sobre o que aconteceu e mais você pensa nisso, mais você compreende que a coisa melhor é responder sim; é como se tudo o seu ser “empurre” para aquela direção porque reconheceu a voz do criador. E Deus chamou de novo (Jn 3,1)... Esta vez como Jonas me pus a caminho (Jn 3,3a) e mais andava para frente, mais a alegria, a satisfação, a realização cresciam. Contei em breve a minha história para que vocês possam entender que Deus é a melhor coisa que possa “acontecer” na vida da gente e digo isso por experiência (quotidiana) pessoal. Por isso Paulo, na segunda leitura, usa palavras “duras” (viver como se não tivesse mulher, como se não chorasse, como se não estivesse alegre, como se não possuísse coisa alguma, como se não estivesse gozando do mundo), para dizer que Deus não é algo que pode ser deixado “no escanteio” e “retomado” depois de alguns anos quando a gente tem algum problema. Aquele Deus que te amou “antes que você fosse dado á luz” (Jr 1,5), que te diz “você é precioso para mim, é digno de estima e eu o amo” (Is 43,4), que criou tudo o que existe (Gn 1-2), que ressuscita os mortos (Jo 11), que liberta o homem de toda escravidão (Mt 4,23-24), aquele Deus cujo rosto de Pai misericordioso Jesus veio nos revelar, que “escuta” sempre o coração humano para saber quando o homem lhe dirá o seu “sim”, aquele Deus cuja Bíblia, desde a primeira até a última pagina, diz que deseja além de qualquer outra coisa ficar ao lado do homem, aquele Deus cuja gloria é o homem vivente (num sentido totalizante), está te dizendo: “Deixa-me entrar na tua vida, no teu coração, só quero fazer da tua existência uma coisa maravilhosa; começamos a andar juntos, a fazer tudo juntos para você descobrir o sentido mais profundo das coisas”. No Evangelho deste domingo Simão, André, Tiago e João responderam afirmativamente demonstrando-nos que viver junto com Ele é possível, é maravilhoso, ás vezes “complicado”, mas é a experiência que faz exclamar: “Vale a pena viver!”. Eles nos dão a prova que deixar tudo por seguir a Deus (Mc 1,18.20), não significa perder alguma coisa, mas ganhar tudo. Isto não significa que amanhã todo o mundo deve deixar pais, casa e entrar no primeiro seminário que encontra; a nossa fundadora, Santa Paula Elisabete Cerioli, disse: “Deus não quer todo o bem praticado por todos, mas cada um deve viver segundo a sua vocação e realizar o bem a quem Ele o destina”. Só precisa de um pouco de coragem para fazer o primeiro passo depois será Deus que nos carregará “sobre asas de águia” (Ex 19,4). Tenho certeza que naquele momento o seu coração exultará de uma “alegria extraordinária” (1Pd 1,8), por ter encontrado “aquela” água que se tornará dentro de você “uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). Deus está esperando de braços abertos o seu sim...

2 dom. Ord. - B

Evangelho - Jo 1,35-42
 

Naquele tempo:
35João estava de novo com dois de seus discípulos
36e, vendo Jesus passar, disse:
'Eis o Cordeiro de Deus!'
37Ouvindo essas palavras,
os dois discípulos seguiram Jesus.
38Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo,
Jesus perguntou:
'O que estais procurando?'
Eles disseram:
'Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?'
39Jesus respondeu: 'Vinde ver'.
Foram pois ver onde ele morava
e, nesse dia, permaneceram com ele.
Era por volta das quatro da tarde.
40André, irmão de Simão Pedro,
era um dos dois que ouviram as palavras de João
e seguiram Jesus.
41Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão
e lhe disse: 'Encontramos o Messias
(que quer dizer: Cristo)'.
42Então André conduziu Simão a Jesus.
Jesus olhou bem para ele e disse:
'Tu és Simão, filho de João;
tu serás chamado Cefas' (que quer dizer: Pedra).
 
Reflexão
 
Depois das festas natalinas, começa, com este domingo, o tempo comum e as leituras
que a liturgia nos propõe são relatos de vocação: a primeira nos informa sobre a
vocação de Samuel, a segunda sobre a vocação do nosso corpo e o Evangelho sobre a
vocação de Simão e Pedro. Hoje em dia quando se ouve a palavra “vocação” a
primeira reação é a de ficar assustados e os jovens logo trocam de discurso ou vão
embora. O problema de hoje é que não se percebe mais a vida como vocação: fomos
criados pelo Amor (Deus), para amar, porque é amando que a pessoa humana se
realiza completando o seu “caminho” e a “conclusão” deste caminho é voltar para o
Amor (na vida de Jesus aconteceu assim: Jo 1,14; 13,1.3; 14,3; 20,17). Para amar:
aqui tem “uma vocação dentro de uma vocação”, ou seja, todo homem e toda mulher
foram criados para amar, mas cada um/uma para amar numa maneira toda especial
(pai e mãe de família, missionário leigo, voluntário, sacerdote, freira, médico,
político, cientista...). As leituras de hoje nos ajudam a compreender que a vocação
não é algo que Deus impõe, mas algo que corresponde ás nossas aspirações mais
íntimas e profundas. A) O encontro com Deus é sempre mediado por alguém, que
com a sua palavra ou os seus gestos nos “leva” para Deus: “João [...] disse: «Eis o
Cordeiro de Deus!». Ouvindo essas palavras, [...]” (Jo 1,35-37) e com Samuel foi a
mesma coisa sendo Eli o “mediador” (1Sm 3,9). B) A partir deste momento é a nossa
liberdade que “nos move”, ou seja, somos nós que livremente decidimos se responder
a esta primeira “provocação”: “os dois discípulos seguiram Jesus” (Jo 1,37); “Ele
(Samuel) respondeu: «Estou aqui»” (1Sm 3,4b). O elemento muito fascinante é que
Deus nunca força a nossa liberdade, mas simplesmente “solicita” e “provoca” os
nossos desejos, interesses, aspirações, sonhos, para que a vocação que está dentro de
nós possa “ir para frente” só se nós damos o nosso consentimento: na primeira leitura
Deus chama Samuel por 4 vezes (1Sm 3,4a.6a.8a.10a) e o “caminho” só continua
depois da resposta afirmativa de Samuel. C) “O que estais procurando?” (Jo 1,38):
estas são as primeiras palavras que Jesus fala aos dois discípulos, ou seja: “Olhai
dentro de vós e aí achai a resposta: não deve ser algo de automático ou imposto, mas
deve brotar do vosso coração, da vossa livre escolha”. D) “[...] onde moras?” (Jo
1,38b): esta pergunta representa o desejo, o sonho, a aspiração do coração dos
discípulos que “solicitada/provocada” vem para fora. E) “Jesus respondeu: «Vinde
ver»” (Jo 1,39a): daqui em diante o “caminho” não é automático nem fixo para todos,
porque cada pessoa tem uma vida diferente, experiências diferentes, inclinações
diferentes e a própria relação com Deus se desenvolve no dia a dia de cada um.        
F) Mais uma vez a liberdade pessoal é “solicitada”: “Foram pois ver onde ele morava
[...]” (Jo 1,39b). “[...] permaneceram com ele” (Jo 1,39b): esta é a conseqüência
lógica do verbo “foram”. Jesus, não é uma definição teológica, mas uma pessoa viva,
uma experiência e quanto mais você conhece Jesus, quanto mais você procura Jesus.
Todos os santos testemunham que encontrando Jesus a pessoa descobre o próprio
“centro”, o verdadeiro sentido da vida, a verdadeira alegria e quando você descobre
isso só deseja “permanecer” com Ele. Este é o meu quinto ano de seminário e todo
dia desejo encontrar Jesus e relacionar-me com Ele como se fosse o primeiro dia
porque mais você se abre, mais você ama e mais você deseja abrir-se e amar.           
G) Quem faz esta experiência não pode guardá-la só para si porque é uma luz, uma
força, uma alegria que “transforma” a pessoa e você deseja que também os outros
possam fazer a mesma experiência: “Ele (André) foi encontrar primeiro seu irmão
Simão e lhe disse: «Encontramos o Messias»” (Jo 1,41). Assim você se torna
“mediador”, o “caminho” da vocação “recomeça” e os outros através de você (que se
tornou “instrumento” de Deus) podem começar a “caminhar”. São João Paulo II
durante uma visita pastoral disse: “Agarrai a vostra vida e tornai-a uma obra-prima”
(Genova, 22 de setembro de 1985). Deixemo-nos “provocar” por estas palavras...

IV de advento - B

Evangelho - Lc 1,26-38
 Naquele tempo:
26O anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,
27a uma virgem, prometida em casamento
a um homem chamado José.
Ele era descendente de Davi
e o nome da virgem era Maria
28O anjo entrou onde ela estava e disse:
'Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!'
29Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a
pensar qual seria o significado da saudação.
30O anjo, então, disse-lhe:
'Não tenhas medo, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus.
31Eis que conceberás e darás à luz um filho,
a quem porás o nome de Jesus.
32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo,
e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi.
33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó,
e o seu reino não terá fim'.
34Maria perguntou ao anjo:
'Como acontecerá isso,
se eu não conheço homem algum?'
35O anjo respondeu:
'O Espírito virá sobre ti,
e o poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra.
Por isso, o menino que vai nascer
será chamado Santo, Filho de Deus.
36Também Isabel, tua parenta,
concebeu um filho na velhice.
Este já é o sexto mês
daquela que era considerada estéril,
37porque para Deus nada é impossível'.
38Maria, então, disse:
'Eis aqui a serva do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra!'
E o anjo retirou-se.
 
Reflexão
Na semana passada dissemos que o Advento é uma iniciativa de Deus, ou seja, um “presente” para poder acolher o “Presente”. Neste domingo, quarto do Advento, as leituras mostram que este “Presente”, a Encarnação, é a última etapa de um caminho de revelação cujo primeiro ato foi a criação do mundo. A primeira leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16), nos instrui sobre a gratuidade de Deus para que possamos compreender ainda melhor os “presentes” que Ele nos doa. Davi se tornou rei de Israel (2Sm 2,4; 2Sm 5,1-5) e depois de ter construído a própria casa se preocupa da de Deus (2Sm 7,2), mas como sempre Deus é imprevisível e surpreende: não será Davi a construir uma “casa” para Deus, mas o próprio Deus construirá uma “Casa” para Davi (assim, no Natal, não somos nós que lhe abrimos a nossa “casa”, mas é Ele que nos abre a sua “Casa”). Davi não se tornou rei porque era mais bonito, mais alto, mais inteligente ou mais simpático do que os outros (1Sm 16,1-13) e a primeira leitura nos explica a motivação: foi um dom gratuito de Deus, um presente de Deus (2Sm 7,8b-9). Davi recebeu um “presente” (tornar-se rei) que preparou o “Presente”: uma aliança eterna (2Sm 7,12.14a-16). Deus ama infinitamente o homem e lhe propõe uma aliança de amor para que o homem possa gozar desse amor; é o amor que leva Deus a “sair de si mesmo” para ir até o homem. A Bíblia inteira é a história da aliança de Deus com os homens (Adão e Eva, Noé, Abrãao, Isaac, Jacó, Moisés,...) e o Antigo Testamento é o tempo da preparação para a aliança nova e definitiva (“Ele será chamado de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco” -Mt 1,23-). No Evangelho deste domingo se diz: “Ele (Jesus) será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó e o seu reino não terá fim” (Lc 1,32-33). Estes versículos são a realização do que está escrito na primeira leitura e São Paulo, na segunda leitura, confirma tudo isso: “Agora este mistério foi manifestado [...]” (Rm 16,26a). Os Evangelhos destes quatro domingos foram um percurso: começaram chamando a nossa atenção (1˚domingo: “Cuidado, ficai atentos” –Mc 13,33-), porque ouvindo “a voz daquele que grita no deserto” (2˚domingo: Mc 1,3) e tendo-nos convertidos (2˚domingo: 1Ts 5,23), pudéssemos “ficar espertos” para saber reconhecer “Aquele” que vem depois de João Batista (3˚domingo: Jo 1,27). Agora, neste quarto e último domingo do Advento o Evangelho nos apresenta o “Presente” de Deus e quem soube aproveitar dos “presentes” dos três domingos passados pode agora descobrir como este “Presente” seja muito, muito especial: é o Filho do Altíssimo e tem como “pai” Davi (Lc 1,32). No versículo 29 do Evangelho se diz que “Maria ficou perturbada com essas palavras” e espero que também os nossos corações possam “saltar de alegria” (Lc 1,44), tomando consciência da grandeza deste “Presente”: Deus decidiu jogar a grande cartada na história dos homens, algo impensável que a todos vai surpreender e fazer voltar para Ele. O grande passo pelo qual Deus esperava desde o princípio e para o qual começou a criação. A Encarnação deu aos homens a possibilidade de viver com o Amor em pessoa e o desejo de Deus é que conhecendo o Filho, estando com Ele, ouvindo-lo falar e vendo-o amar, os homens saibam amar: abraçando este Amor o homem estará salvo. Todo dia nós temos esta possibilidade porque através da Eucaristia podemos viver com o Amor em pessoa e escutando o Evangelho podemos conhecê-lo, ouvi-lo, vê-lo e nos apaixonar por Ele tornando possível a vivência da vida eterna já nesta terra porque “a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti (o Pai), o único Deus verdadeiro e aquele que tu enviaste Jesus Cristo” (Jo 17,3). Que estes dias que nos separam do Natal possam ser o tempo para meditar sobre este príncipe (Jesus) que deixou os privilégios relacionados ao seu status divino (Ef 2,6) para viver junto (Encarnação) com a jovem lavadeira (a humanidade) para a qual Ele estava apaixonado, de modo que a lavadeira aprendendo a amá-lo teria ganhado nobreza (é amando que o homem se realiza) e tornando-se uma dama (Jo 3,7) iria viver com Ele no palácio (o paraíso –Is 64,3; 1Cor 2,9-) para sempre (Rm 8,35-39).
(A história completa do “príncipe e da lavadeira” se encontra no livro “O príncipe e a Lavadeira”, Nuno Tovar de Lemos SJ, Paulinas, 2006, 67-86).